quarta-feira, 21 de setembro de 2016

olho fixamente para o mar, constato: o mar não se repete.
o que meu olho capta de sua amplidão? me detenho, observo por horas sentada, com os pés fundos na areia, percebo: o mar não se repete.
recorto com o olhar um pequeno momento de mar e novamente não posso desvenda-lo, mesmo em um breve pedaço de água em movimento, enquadrado por meu olhar demorado, aprendo: o mar não se repete. Me captura a fluidez do mar como se eu pudesse olhar o vento não posso guardar, segurar, mas sei que algumas coisas não vejo, apenas sinto, minha compreensão do mar é um palpite.
intuo o mar,
entende-lo é assim imediato.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

percorrer andando

Quantas coisas um lugar pode significar. Fui encontrar um amigo, cheguei antes. Ao sair do trem senti, com um arrepio, já ter estado ali mas ainda não lembrava quando ou porque, a memória encontra suas formas de covardemente proteger o homem. Subi as escadas, passei a catraca minhas pernas tremeram, meu coração acelerou e chorei antes de saber, o corpo as vezes se antecipa. O que fica da gente perdido nos lugares? Aquele percurso doloroso se abria à mim mais uma vez e agora eu estava sozinha e, como esperava, não podia ir embora. Fiquei olhando pra cidade, assustada com o tamanho da avenida e das coisas que não cicatrizam. Lembrei da força daquele homem que nunca reclamou do processo doloroso pelo qual passava e isso sempre me enche de ternura e dor, desde que tudo aconteceu, há quatro anos, nunca havia tido coragem de escrever sobre, narrar os acontecimentos me parecia reduzi-los em um esquema lógico além de ser um reencontro difícil com a morte. O corrimão da rampa me segurava quando senti um deslocamento, alguém me olhava? Subia uma senhora toda de vermelho, curvada pelo tempo, o cabelo trançado, me lembrou os ciganos e assim veio nômade por mim. Ela parou de caminhar, que medo tive, senti que viria falar comigo e já sabia que ela não precisaria ler na palma da minha mão a minha sorte. Pensei que se não olhasse pra ela ficaria invisível e a desviaria de sua intenção, assim eu acompanhava tudo pelo canto dos olhos e com as costas. Agora ela já estava ao meu lado e entendi que devia aceitar aquele encontro. Ela me falou sobre a terra, o tempo, as flores que já eram antes de desabrochar, me falou de Daniel que não foi dilacerado pelo leão, falou da morte e de outros mistérios. Como os seus olhos pareciam com os olhos do meu pai. O que levamos dos lugares pelos quais passamos. Ao contar a história para alguns amigos ouvi sobre casualidade e também sobre anjos, nunca consegui dar nome as minhas crenças. Tive apenas uma curiosidade naquele encontro, a de saber o nome da mulher, perguntei, Maria da Conceição.

domingo, 28 de março de 2010

CANTO IV

"JOVEM"- excerto sobre atar

seus "poemas-observes" sobre JOVEM
aí! que lindo, são poemas!
só os vi agora.
muito obrigada, nem precisa de oferecimentos.
te amo, muito, meu você.
desculpe-me por minha agressividade que é desvairada.
me fez disfarçar para mim mesmo uma pequenina e roliça lágrima.
fez, em um instante, grande aquilo que intui sob o véu de minha pequenez.
você, meu alguém, além de uma das descendentes de mim, é grande e para sempre.
beijos-beijos e muitos mais beijos
deixo que escolha uma pulseira de ATAR.


)Luiz Carlos Rufo e Mira Serrer Rufo - "Jovem- a filosofia que anda - excerto"(

sábado, 26 de dezembro de 2009

Círculo


Era no contorno, no limite da pele constrangida pelo ar pesado da vida que tentava desmarcar-se. Forjava uma mascara com muito pó e, marcando-se com cores espessas, tentava apagar as linhas que flagravam o tempo corrido sobre a palidez flácida da carne. Todos os dias pela manhã concentrava os poucos fios os atrofiando no topo e, mesmo com ralos cabelos, sentia a cabeça pesada repleta de pensamentos pequenos cada vez menos dignos de atenção, herdeiros do vício, deformavam o tempo o ocupando todo numa avidez atordoante. Restringiam o espaço os paralisados olhos depravados, sobre o mesmo viés torto e vacilante, e toda vastidão incerta era subtraída pela certeza da mesmice infértil.
Homens de vento passavam corridos e senti-los era se perder dentro da ventania- rotineiramente satisfazia-se em desalinho. Fazendo abandonar o equilíbrio o vento batia violento nas pernas, levantava a saia a bagunçando, soterrando toda a lógica de manter-se em pé a derrubava no chão e a rolava na terra seca.Arrancava com aspereza todo pó colorido deixando insuportavelmente a face nua, o cabelo se desfazia insistindo em pousar sobre os olhos.
Sofregamente abatia-se a vontade, mais uma vez, num miserável deleite. E Eles corriam furtivamente em toda sua volta impedindo passagem, num óbice arredondado do qual não se escapava pois sair era voltar ao ponto inicial .

sábado, 14 de novembro de 2009

O anel



O som da queda estremecia o silêncio da caminhada até ali. Recuou sistematicamente o próximo pé, que iria passo à frente, e foi para trás em reflexo de instinto. Os dois estalados olhos voltaram-se para o chão, em ânsia de resgate procurou o anel a querer cravá-lo novamente no espaço vazio que ficará em seu dedo. Não o encontrou e percebeu que era necessário também soltar-se dos dedos da mão de homem que a segurava sem muito alento. Separou-se duramente em desmedido esforço. E ele pra longe, se desfazendo aos poucos onde o olhar não alcança mais. As mãos agora estavam nuas e o caminho aberto, a estrada era longa pra se perder em caminhadas.
O céu começava a descolorir, os tons azulados desbotavam entre os cinzas e as grandes nuvens brancas que outrora adornavam o céu em rococós macios sumiam em revoada. Ela sentou um pouco para chorar, chorou muito, estava cansada. Ficou ali, queria esvaziar-se, ficar como o dedo, se sentia como o dedo nu abandonado pelo adereço, sem alguma graça. Olhava reticente as arvores nas beiradas da estrada e se encantou tanto com as flores que nasciam no silencio da noite que não pode compreender. Elas explodiam em brancos dos botões entre as folhas verdes e clareavam o escuro.
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O anel caiu do dedo com desmedida naturalidade que talvez fosse mentira. Ela colocou rapidamente a mão em frente aos olhos e a evidência, exposta a luz do meio dia, a atordoou com ligeireza. Enquanto agudamente ecoava ao seu arredor, insistindo na veracidade do fato, o tilintar do encontro do metal com o chão em canto alto, e a ressurreição se deu. Os pés há muito parados voltaram a caminhar, iam voluntariamente pra frente. Era estranho não senti-lo mais em sua mão, havia se acostumado e uma fio de medo de liberdade a arrepiou, estar livre era um difícil reencontro. Então olhou com verdade para a outra mão e teve que soltá-la do homem que, forçosamente, a acompanhava, naturalmente se separaram.

O corpo agora estava leve e ela podia ir mais alto, alçada por todo espaço externo somente com a inspiração. Se enchendo toda de tudo que podia flutuava leve, então expirando ia em descida vertiginosa, se abandonava em si, em mergulho profundo pro mais desconhecido que podia haver. Dolorido as vezes era estar só em si mas tão necessário como o ato de trazer pra dentro e jogar pra fora o ar, era vital. As mãos agora estavam nuas e o caminho aberto, a estrada era longa pra se achar em caminhadas, o céu era de um azul doloroso na intensidade e ela largou-se um pouco para rir, riu muito, estava cansada.
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Talvez fosse mentira, talvez. Mas a evidência exposta a luz do meio dia a arrebatará e construir refúgios em raciocínios de palavras forjadamente sábias não seria sincero. Olhava reticente as arvores nas beiras da estrada e se encantou tanto com as flores que nasciam no barulho do dia que não pode compreender. Elas explodiam em roxos dos botões entre as folhas verdes colorindo a manhã e as mãos agora, repletas de espaço, estavam prontas.

sábado, 26 de setembro de 2009

A música


O ar preto e pesado da noite era permeado por vibrações suaves e sonoras que refletindo as cores da lua adejavam ao entorno do homem.
O homem distraído do resto doava às cordas duras os dedos, os dedos sem rancor de calos entregavam-se as asperezas do fazer , pois sabiam, mais do que o homem, que para refletir as pratas da lua e tornar o escuro mais claro era preciso, em profunda entrega, machucar-se no construir.
O homem segurava o instrumento ao mesmo tempo que o instrumento segurava o homem. O movimento das cordas transpassava as pernas do homem e a caminhada das pernas tocavam as cordas do instrumento. Por isso quando o homem caminhava fazia música, e por causa da música, caminhava.
Certa vez a melodia soou triste no encontro dos dedos com as cordas . pensou estar perdendo em algum pedaço da música algum pedaço do homem, o som era amor e doía. Com medo as pernas paravam parando as cordas e escurecendo a noite . o escuro era imenso e sem nada apenas repleto do silêncio do homem.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

você tem muita luz


Elas largam-se no ar ao ver você passar lá por baixo, caminhando alheado da rua, e vão suavemente despencando para o chão em sua direção . Uma a uma suicidando-se docemente para tocar, em último suspiro, o seu colo e depois, transbordando os perfumes coloridos por todo corpo seu, vão brincando de rolar até seus pés e então tecem tapetes, em amarelos e lilases, para colorir o chão do seu caminho.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Fabiano


Lembro bem como veio até mim; rápido, intrometido. Lembro como não quis que viesse, alguns medos sem cara ou nome me circundavam, receios construídos em uma vida, vale largo. Mas ele, sem consciência disso transpôs com facilidade, com suas pernas tão mais curtas que as minhas, este intervalo de espaço que havia entre nós. por fim, cedi aos seus cheiros de menino bom. Fabiano, ponto de luz, veio chegando rápido em minha vida, como um vazamento luminoso por de trás do céu em penumbra, reminiscência brilhante que surge pequena e pontuda quando o mundo apaga.
 Gastava algumas horas da tarde sentada no banco do parque e com, certa morbidez, eu observava  a espera de  colisões das crianças brincando descontroladas por energia de quem cresce e quer. Elas iam desviando das quinas, sempre correndo, entre as construções velhas e precárias de ferro. Não havia muitas opções; dois balanços, um escorregador,um trepa-trepa, uma área de areia e um extenso gramado pisoteado, repleto de grama corrompida pelas centenas de pisadas leves. E iam infinitamente interagindo em relações vertiginosas, se dividiam em filas contavam até trinta e já era hora do próximo, e ai de quem não saísse em pulos pelo ar ao chegar berrado em coro o numero de ordem, o acento carcomido de tabua vermelha era almejado por todos, outros iam montados em seus enormes cavalos transparentes esculpidos no ar pelos pequenos dedos, em galope esquivavam-se com facilidade dos acidentes eminentes, emboscadas que havia a cada metro de terra. E foi lá que iniciou a minha crença em anjos, punhados deles, centenas a nos sobrevoar com suas asas coloridas,translucidas e diáfanas riscando o vento, todo o espaço. Aquele caos organizado dos parques de praças me encantava, os gritos delas criavam um emaranho agudo e indecifrável que curiosamente me acomodava. Ele, Fabiano, me enredava mais que as outras. Menor que todos, bem pequeno, um dos dentes da frente da arcada era graciosamente estragado, seus olhos grandes, bem maior que toda a cara sempre brilhavam em contraste com os infinitos marrons da pele, areia em princípio de chuva,Fabiano era rajado! Vinha sempre correndo sem algum pudor pular no meu colo,e o susto que a sua velocidade sugeria, era amortecido e desfeito pelo impacto de nossos corpos, Fabiano tinha o peso dos pássaros. Então conversávamos muito sobre qualquer coisa, pipas, doces, rinocerontes, pulgas. Tentávamos juntos desvendar o som das letras enquanto colecionávamos folhas caídas e vibrávamos com outras miudezas. A tarde era uma tarde ao lado de Fabiano. em jogos de adivinhas e outras brincadeiras encontrou o que de mim, e em mim, se escondia. Entre tantos tesouros desenterrados me ensinou um segredo valioso, certo fim de tarde me puxou ansioso e apontou o dedo mostrando no alto da arvore uma colmeia e entusiasmado disse saber bem que aquilo la no meio das folhas era um cacho de mel(...)

domingo, 31 de agosto de 2008

quase carne


Ela te faz entender as coisas, te indica com setas luminosas onde deve pisar, você confia muito nela.

Você está contido nela e Ela não deixará seus gestos irem além, pois já te proporciona o necessário e sem nenhum risco de escassez, assim tudo fica ao alcance de sua boca. Ela amarrou suas mãos, suas pernas, cortou as asas de seus devaneios, interrompeu seu gozo com um olhar, mas não é parcimoniosa pois, em um único gesto da ponta do dedo que indic, faz desgrudar seus lábios, descerra seus dentes e te lança o alimento. Cabe à você apenas a parte, automática, de mastigar sem provocar grande atrito, a refeição é macia pq bem cozida, te coloca satisfeito apenas com o esforço seu de não usar a força dos dentes.

Ela te aconselha muito bem, você enxerga e entende tudo através dela.

Vi que Ela te acenou as mãos alvas, agora entrega à você uma delas espalmada, você, com olhinhos cativos de menino à agarra apertando forte e com fé, os dedos seus estão entrelaçados com os dela, duramente intercalados, vocês estabeleceram um pacto. Você está feliz agora e sorri tranqüilo, nenhum conflito. Caminha de cabeça erguida, cumprimenta todos, satisfeito com sua honestidade. Não há mais correnteza para escurecer, com a areia negra das profundezas da sua vontade, as águas claras e quietas da sua conduta que, em erro, outrora se agitaram provocando-lhe enjôos. agora sua consciência é calmo e translúcido lago.

Você é fiel à Ela que te faz entender as coisas,

te embala em inércia para que não cometa erros, assentou sobre você, em forma de sentença, dúzias de valores e te deixou reluzente em princípios, ah! Você pode respira fundo, finalmente com as duas narinas e sente a paz te ocupar por inteiro. Ela é sua companheira! E assim você caminha solenemente, enquanto multidões de homens e de mulheres, sem rostos, te aplaudem. O reconhecimento soergue-se no ar quando recitam em coro o seu segundo nome.Você está feliz e satisfeito.

olhe em volta


 não se faz necessária tanta reflexão. É uma questão assim de tão fácil discernimento. , pq continua a insistir em confundir ser querido com ser requerido?  são só coisas fluidas como a água. Pode conseguir fugir do elemento que tanto te bota medo, meu caro gato, mas não vê que da sensação, dessa não foge! Essa te arrasta, vai te rolando e arranhando pela orla, caminho único que se permitiu.
Veja bem que pra lá do primeiro, e segundo e infinito pensamento, e pra cá, um pouco antes do instinto ,entre eles, existe o sentimento, este encurralado e escondido só vai fazer te confundir, destoante, te atormentará em luas gordas e te botará em hora doido e doído.
É que quando o fruto amadurece, nessa maneira que pretende sem saber, o encontro com chão é forte.meu querido ser individual, não olhe tanto pro centro do seu ventre. Não seja assim de tão rígida e mesquinha posição. Erga a cabeça ,olhe em volta, sinta o vento que passa, eleve-se um pouco nele. Olhe para os lados, ! Olhe, olhe fundo, os olhos que te olham assim com tanta graça.

a Verdade


Em ‘as’ onerosos que vinham subidos rápidos da boca do estomago, trepados pela garganta, chegando como límpido estrondo, ecoante. Na acústica da cavidade bocal finalizando-se, dos dentes entre abertos soltavam-se errantes, chispados pra fora em direção minha. Eructaram em minha face, e em seu reverso também,tudo o q era unilateralmente verídico.
Era grave ruído, ruído oriundo de corpos amorfos e satisfeitos dos objetos maduros, deglutidos, que começavam a fermentar. Não me agradava os sons desprendidos por eles à mim, mas habituei-me e concordo. Entendendo a posição assumida pela parte, também o faria se neste prato da balança tivesse tantos quanto do lado de lá. Mas perdi pendido aqui, meu prato vazio suspendendo-me.
Creio que os abjetos sazonados não faziam por mal mas, simplesmente, agindo contra azia pela qual passavam, pensavam assim formas baratas de aliviar-lhes os estômagos, apontar cá pra mim a culpa por toda a indigestão medonha de seus organismos falhos. Descarregavam o mal estar da barriga pesada, cedendo ao meu tempero, a causa culposa do caso.
Mal percebiam, quando falavam suas ásperas verdades sobre meus tons esverdeados, que as faces deles possuíam coloração amarela, não amarelo que precede a madureza do alaranjado e vermelho, tão estimado por eles, era o amarelo proveniente da bílis. As vesículas cansadas e obstruídas, em extravasamento retroativo, proporcionavam tais matizes aos respectivos. Eles eram, de mãos dadas, os monopolizadores da verdade e donos de um aspecto pavoroso

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

mulher


Ela sente bem bonito! A lagrima dourada brotou no canto do olho, não era de dor e mostrou verdade. E era lindo ver correr no rosto, iam mudando de cor a gota e a face! A gota brilhando em prismas de infinitos azuis, vermelhos, lilases; refletidos na água salgada os matizes do Esplendor que ela via. As bochechas rosando, como o entardecer de um dia de luz de verão forte. Com a mão esquerda enxugou o rosto, borrando a cara com cor, enquanto a direita gesticulava aflita, mil dedos, e disse ser boba, mas não era não.

porcelana


 Fizera-me perdido, absorto, desconcentrado de mim. Por alguns longos minutos levou-me enlevado, estático, extasiado. Sua beleza, ah!

Ah, botou-me melancólico, embebido em dia nublado, reportou-me à uma velha casa de um tempo já passado. Lembrava-me aquelas bonecas. Sim, é certo, existia nela uma convergência dos traços, que compunham o desenho da face, na mesma rotina que havia nas linhas dos rostos, e todo o resto, daquelas velhas bonecas empoeiradas de porcelana. Primeiro na estante a compor a lúgubre decoração e depois sumidas, pra onde?

Exacerbadamente delicadas delicadamente tristes, tristeza ofensiva esquecidas em canto escuro. Sua pele branca, porcelana rachada, a compor jogo de contrastes lânguidos com o ambiente apagado que no arredor se fazia, praça pálida, nenhum sol.

O corpo mole de espuma cansada, já sem conseguir sustentar a cabeça de matéria dura, tombava-lhe toda por cima do ombro escolhido, torpor. Os pés também, duramente parados, enterrados na sua imobilidade de boneca. Brinquedo velho, lembranças velhas. Brinquedo coisa, coisas que já não queremos mais.

Do lado de lá do gramado achou-me, mirou-me os olhos, calafrio! Desviei-me todo, incomodado sentado no sofá em frente à estrutura de mogno, tabuas fortes sobrepostas no horizonte, paralelas, intercaladas todas pelas incontáveis criaturinhas.

O céu fazia-se denso concreto cinza, o vento que passava, a cantar em sopros, conduzia em dança os cabelos negros. Olhava-a, agora com olho no canto, disfarçava bem. Pra lá dos longos fios, no plano ao fundo, aquelas flores amarelas murchas, não amarelo ocre, amarelo gasto, quase bege, dentro da moldura escura, posta torta na parede úmida, eu prostrado (...)s

terça-feira, 5 de agosto de 2008

O céu fazia-se denso concreto cinza. o vento que passava, a cantar em sopros, conduzia em dança os cabelos negros. olhava-o, agora com olho no canto, disfarçando bem.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Ao Pai


. É que fazia ele com a caneta tinteiro coisas de pincéis de cor. E nos desenhos de tinta fazia música. Era um louco da sensibilidade posto na encruzilhada das sensações, atento a tudo sem querer. Vertia em palavras, desenhos e som as verdades delicadas da alma. E até o mais singelo dos homens se coloria todo ao ver, sem notar, o além daqui, o pra lá do céu, o infinito que reluzia dentro da folha cheia.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

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Denuncio: é tirania pura
ê troço imperioso, sô
Arre!
mas a gente ainda burla a Despótica,
faz troça dela
escarnece
ri muito
e depois decapita
e começa outro capítulo
e encontra outra tirânica.
é que está dentro,
em nós a imperativa,
fugir é que não dá,
saída é que não há.
ela é sempre e nos manda.
.
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Vinha ali pela rua, subindo, aparecendo rente ao horizonte lá bem no final. Ligeiramente a cada pisada à frente vinha maior, apressadamente abanava-se aflito. Hora e outra cessava a ventilação para, com as mãos, fazer contrapasso aos tropeços dados nuns tantos paralelepípedos soltos da doce rua, na plena cidadezinha. E apesar das meias dúzias de árvores, pelas laterais da via plantadas há muito, não se blefava o requeime, é que o sol era sempre muito redondo e branco no pino do céu, e elas faltosas de folhagem negavam sombra a passagem. E derretendo-se vinha o moço! Suando a camisa no peito e molhando-a na manga ao enxugar, repetidamente, a água que brotava da testa com fluidez de nascente de rio que abunda. Chutou alguns muitos cachorros, que por ali nasciam feito coelho, que culpa de nada tinham, e pisou por fim na calçada da praça.
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Era sábado, lá pelas duas, praça cheia. O coreto no centro gasto de tanto tempo que música nunca mais ecoara e agora, em seu rebaixamento social, comportava saltos e estripulias de crianças energéticas que não cessavam nunca. Algumas se preocupavam em lutar contra o sol que queria roubar-lhes os picolés, com golpes rápidos de línguas lambiam velozes antes que os sorvetes cobrissem inteiras as mãos do líquido pegajoso que, dali escorria até a ponta dos cotovelos, e antes de pingar no chão subiam evaporados para o céu. E tinha lá mais todo tipo de gente igual, umas em pé a falar sobre o calor, outras pelos bancos sem cor, sentadas, a falar sobre o calor e mais um punhado de pombos pousados no ar condensado. Foi o nosso rapaz,palpitante, bem para frente do coreto subiu no banco de maior evidência aos olhos marasmados e levando as mãos, que imitavam conchas, à boca gritou forte:
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- ATENÇÃO, ATENÇÃO!
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A atenção devida não foi dada, a acústica que as mãos construíra de
nada adiantou. Era preciso falar mais alto e mais cuspido, porque de fato a camada de calor atrapalhava a caminhada das ondas de som pelo ar. Saídas secas da boca ficavam estancadas na primeira fronteira de ardor adocicado, numa mistura compacta de quentura e sorvete, e até os ouvidos de todos não chegava . Desfez a conchinha e, com as mãos, afastou um pouco de calor.. e falou bem alto e provocando umidade. -Atenção atenção E deram!
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Mesmo aos que o som não chegou fez-se uns cutucões e formam informando-se todos do comunicado! E chegavam mais perto, curiosos, para ouvir. E depois da atenção deram tensão. É que nosso rapaz trazia em seu discurso idéias vanguardistas de revolução e falava de abusos de poder e submissão de todo o povo. Demorou um pouco para todos compreenderem o que dizia, foram 7 dias e 7 noites da mais fluida retórica e observavam democráticos e aderindo aos poucos a idéia de decapitar a tirânica. Até o prefeito concordou, os que não acabaram persuadidos por leques e ventiladores. O plano era simples, queriam guilhotiná-la. mas como ninguém sabia construir tal aparato optaram por matá-la com qualquer tipo de ferramenta. E Não planejaram mais nada, pois se assim fizessem teriam tempo para pensar melhor . Iriam até lá, na luz da próxima manhã, faltava alguns quartos de horas.
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O sol apontou fervente no princípio do céu alaranjado. Já estavam em seus postos em pé e prontos, agarrados firmes em suas ferramentas para o combate e, após votos de boa sorte, deram inicio a jornada. Iriam burlar a despótica...fazer troça dela, escarnecer,rir muito! E depois decapitar com unhas e fúria.
Daí que na densidade do todo iam, mascarando-se uns nos outros, pela rua reta e depois à direita, escondendo-se atrás das armas, que podia ser pedra ou qualquer material cortante, E então na leve ladeira inclinavam-se já em um trote lento faltoso de cólera, mole na ira.Começou a transpassar os passos dos justiceiros certa cadência tremula. abaixo dos pés a pontezinha bamba, passavam por cima do lamaçal fervente e fundo, estavam chegando. Algumas meninas precipitaram a chorar, gostavam da imperiosa que as distraia dos dias fartos de enfado, as lagrimas se soltavam dos olhinhos encharcados da mocinhas e iam molhar o céu.O nosso moço, ao perceber o comportamento de seus belicosos, procurou uma pedra alta foi pra cima dela e iniciou lecionando o ódio.
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Passaram cinco horas e ao termino completou as lições afirmando que estavam sendo entorpecidos por aquele cheiro de flores, saturava toda a estrada, naquele perfume adocicado é que estava o mal estar da caminhada. e que ia transformando os apetrechos de guerra, que carregavam nas mãos, em flores. deixava nebuloso os sentidos e ia ofuscando toda a clareza da verdade, procedimento Dela pra se defender da má sorte que chegava, explicou . Mandou então q todos não respirassem mais, e obedeceram, já mais pálidos e elucidados pelo saber, retornavam estufados ao estado de rancor .Nosso moço ainda advertiu, viril, à todos para que não olhassem nos olhos da Imperativa. .É que aqueles olhos negros, poço sem fim, subtraía até o mais analítico dos homens em eternas partículazinhas e as sugavam num universo infinito e sem luz.
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Caminharam um pouco mais, ainda no reto, ainda pra cima, pros lados em curva e depois mais pra baixo, e iam enganando o calor com o suor frio. E do fundo de flores e arbustos e espinhos, encontraram-na. Estava pairando sob dentes de leão, envolta por borboletas de infinitas cores fortuitas. Lançava-se bailando ao acaso com algumas centenas de pássaros pequenos, ia arqueando os braços que formavam residência transparente dando voltas em volta da cabeça. Seus pés delicados apontavam em setas e tocavam levemente pedaços de ar que se convertiam em muita luz. Tinha certa peculiaridade na fisionomia que gerava encanto espantado, o estomago de todos gelava as vezes rápido, por hora aos poucos. E foram tratando de cerrar bem os olhos e fazê-la desintegrada já na visão. Não era certo olhá-la, se despregassem um pouco as pálpebras exprimidas, entre os cílios, viriam-na desprovida de formas nítidas toda recortada pelos fios dos olhos, e já assim seria suficiente pra provocar-lhes tempestades de submissão, ajoelhariam diante de suas doloridas regras, dolorosas ordens. Especulava ,ela, pela emoção e sem hesitar em escrúpulo. Alguns bocados de homens, que não resistiram ao canto que vinha da cena, abriram os olhos para espiar e iam logo explodindo em pétalas a compor adejados o céu, soterrados o chão, impregnados do infinito do entorno dela.
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Sucedeu então uma atordoante subtração no número de homens que compunham o grupo de enfurecidos. muitos deles já eram cores, matizados em fragmentos vermelhos dispersos por todo ar. outros já sem prender a respiração estufavam-se com o cheiro , os pulmões logo rebentavam dentro das estruturas fortes de carne e ossos , inundando todo o organismo daquele gosto agudo e doído que ia escapando em brotos de gotas ferventes pelos poros, queimando a pele. As lancinantes sensações confundia todas as vias lógicas da compreensão,. capturados, rendidos, entregavam-se, perdidos deles próprios dentro do calor que vinha dela. Estavam seivosos e dispostos a morrer. Largavam-se em espasmo sucumbindo para cima .
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Nosso moço, único ainda que recordava o porque de estarem ali, berrava a verdade desesperado esperando chegar sua voz aos homens . Ao perceber que suas palavras nada influía a multidão, calou, construiu-se em coragem decidiu ir sozinho, apenas com uma faca em uma das mãos, a outra ia espalmando o espaço e abrindo passagem entre as nuvens de pétalas. E ao chegar não conseguiu feri-la. Nosso moço chorou muito, desamparado, abandonado, abaixo da imaterialidade que era Ela. Então percebeu ali, encolhido e todo sujo de calor, qual era a única maneira de vencê-la .Ergueu a faca e  a trouxe até o próprio peito, e chorou ainda mais ao ver entre as mãos, no lugar da arma, uma flor.

Ao Amigo Poeta!

" A poesia é a arte de pôr em movimento o fundo da alma; de revelar a individualidade ativa; de manifestar o mundo interior na sua totalidade. De acordo com este "coração produtivo", tudo pode ser enciclopetizado, a partir de um método que libere o gênio, submetendo seus mergulhos a uma crítica lúcida. O poeta filósofo é bem o criador absoluto, porque o univeso de cada homem, quando sentido e vivido em sua plenitude, é universal."
PAUWELS

sábado, 21 de julho de 2007

Mulher


Ela sente bem bonito! A lagrima dourada brotou no canto do olho, não era de dor e mostrou verdade.. E era lindo ver correr no rosto, iam mudando de cor; a gota e a face! A gota brilhando em prismas de infinitos azuis vermelhos lilases; refletidos na água salgada os matizes do Esplendor que ela via. As bochechas rosando como o entardecer de um dia de luz de verão forte. Com a mão esquerda enxugou o rosto, borrando a cara com cor, enquanto a direita gesticulava aflita, mil dedos, e disse ser boba, mas não era não.
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................................./desenho: técnica mista-Rufo/