sábado, 14 de novembro de 2009

O anel



O som da queda estremecia o silêncio da caminhada até ali. Recuou sistematicamente o próximo pé, que iria passo à frente, e foi para trás em reflexo de instinto. Os dois estalados olhos voltaram-se para o chão, em ânsia de resgate procurou o anel a querer cravá-lo novamente no espaço vazio que ficará em seu dedo. Não o encontrou e percebeu que era necessário também soltar-se dos dedos da mão de homem que a segurava sem muito alento. Separou-se duramente em desmedido esforço. E ele pra longe, se desfazendo aos poucos onde o olhar não alcança mais. As mãos agora estavam nuas e o caminho aberto, a estrada era longa pra se perder em caminhadas.
O céu começava a descolorir, os tons azulados desbotavam entre os cinzas e as grandes nuvens brancas que outrora adornavam o céu em rococós macios sumiam em revoada. Ela sentou um pouco para chorar, chorou muito, estava cansada. Ficou ali, queria esvaziar-se, ficar como o dedo, se sentia como o dedo nu abandonado pelo adereço, sem alguma graça. Olhava reticente as arvores nas beiradas da estrada e se encantou tanto com as flores que nasciam no silencio da noite que não pode compreender. Elas explodiam em brancos dos botões entre as folhas verdes e clareavam o escuro.
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O anel caiu do dedo com desmedida naturalidade que talvez fosse mentira. Ela colocou rapidamente a mão em frente aos olhos e a evidência, exposta a luz do meio dia, a atordoou com ligeireza. Enquanto agudamente ecoava ao seu arredor, insistindo na veracidade do fato, o tilintar do encontro do metal com o chão em canto alto, e a ressurreição se deu. Os pés há muito parados voltaram a caminhar, iam voluntariamente pra frente. Era estranho não senti-lo mais em sua mão, havia se acostumado e uma fio de medo de liberdade a arrepiou, estar livre era um difícil reencontro. Então olhou com verdade para a outra mão e teve que soltá-la do homem que, forçosamente, a acompanhava, naturalmente se separaram.

O corpo agora estava leve e ela podia ir mais alto, alçada por todo espaço externo somente com a inspiração. Se enchendo toda de tudo que podia flutuava leve, então expirando ia em descida vertiginosa, se abandonava em si, em mergulho profundo pro mais desconhecido que podia haver. Dolorido as vezes era estar só em si mas tão necessário como o ato de trazer pra dentro e jogar pra fora o ar, era vital. As mãos agora estavam nuas e o caminho aberto, a estrada era longa pra se achar em caminhadas, o céu era de um azul doloroso na intensidade e ela largou-se um pouco para rir, riu muito, estava cansada.
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Talvez fosse mentira, talvez. Mas a evidência exposta a luz do meio dia a arrebatará e construir refúgios em raciocínios de palavras forjadamente sábias não seria sincero. Olhava reticente as arvores nas beiras da estrada e se encantou tanto com as flores que nasciam no barulho do dia que não pode compreender. Elas explodiam em roxos dos botões entre as folhas verdes colorindo a manhã e as mãos agora, repletas de espaço, estavam prontas.

2 comentários:

loren disse...

Belíssimo texto sobre a separação...

O desenho que acompanha o texto é um dos seus da aula de modelo vivo?

Bjs, loren

loren disse...
Este comentário foi removido pelo autor.