quarta-feira, 30 de julho de 2014

percorrer andando

Quantas coisas um lugar pode significar? Fui encontrar um amigo, cheguei antes. Ao sair do trem senti, com um arrepio, já ter estado ali mas ainda não lembrava quando ou porque, a memória encontra suas formas de covardemente nos proteger. Subi as escadas, passei a catraca minhas pernas tremeram, meu coração acelerou e chorei antes de saber, o corpo as vezes se antecipa. O que fica da gente perdido nos lugares? Aquele percurso doloroso se abria à mim mais uma vez e agora eu estava sozinha e, como esperava, não podia ir embora. Fiquei olhando pra cidade, assustada com o tamanho da avenida e das coisas que não cicatrizam. Lembrei da força daquele homem que nunca reclamou do processo doloroso pelo qual passava e isso sempre me enche de ternura e dor, desde que tudo aconteceu, há quatro anos, nunca havia tido coragem de escrever sobre, narrar os acontecimentos me parecia reduzi-los em um esquema lógico além de ser um reencontro difícil com a morte. O corrimão da rampa me segurava quando senti um deslocamento, alguém me olhava? Subia uma senhora toda de vermelho, curvada pelo tempo, o cabelo trançado, me lembrou os ciganos e assim veio nômade por mim. Ela parou de caminhar, que medo tive, senti que viria falar comigo e já sabia que ela não precisaria ler na palma da minha mão a minha sorte. Pensei que se não olhasse pra ela ficaria invisível e a desviaria de sua intenção, assim eu acompanhava tudo pelo canto dos olhos. Agora ela já estava ao meu lado e entendi que devia aceitar aquele encontro. Ela me falou sobre a terra, o tempo, as flores que já eram antes de desabrochar, me falou de Daniel que não foi dilacerado pelo leão, falou da morte e de outros mistérios. Como os seus olhos pareciam com os olhos do meu pai. O que levamos dos lugares pelos quais passamos? Ao contar a história para alguns amigos ouvi sobre casualidade e também sobre anjos, nunca consegui dar nome as minhas crenças. Tive apenas uma curiosidade naquele encontro, a de saber o nome daquela mulher, perguntei, Maria da Conceição.

Nenhum comentário: